No dia 10 de novembro deste ano o CEMED promoveu o seminário “Tecnologia médica e farmacêutica e seu impacto na medicalização”, com a participação do professor José Augusto Cabral de Barros, doutor em saúde pública pela Universidade Autônoma de Barcelona, co-fundador da SOBRAVIME (Sociedade Brasileira de Vigilância do Medicamento) e autor de diversos livros sobre publicidade e medicalização e políticas na área farmacêutica.
Através de uma exposição bem sólida e consistente, diversos dados foram apresentados com a finalidade-mor de estimular a reflexão sobre a influência da indústria farmacêutica nos rumos da pesquisa e da saúde, com ênfase ao uso irracional dos medicamentos.
De acordo com a OMS, em dados de 2002, cerca de 50% dos medicamentos são prescritos, vendidos e administrados de forma inapropriada, e os demais 50% são usados de forma indiscriminada pelo próprio usuário/paciente. Isso consolida estatísticas referenciando gastos anuais nos EUA e na Europa, da ordem de 4,5 e 9 bilhões de dólares, respectivamente, com antimicrobianos em uso indiscriminado. Além de todo o custo gerado equivocadamente, torna-se altamente relevante e primordial questionar os impactos na área de saúde, e, em especial, aqueles com efeitos diretos na vida dos usuários. Neste ínterim urge questionarmos sobre a origem de toda essa temática, bem como sobre a real função social do farmacêutico no sentido de ir de encontro a esse tipo de problema.
Outro foco foi o surgimento – ou apenas novas nomeações – das chamadas doenças psíquicas, denominadas, na maioria, de transtornos. Como exemplo disso, temos que nos EUA, entre 2000 e 2007 dobraram as prescrições médicas contra doenças como transtorno bipolar em crianças de 2 a 7 anos, conforme estudos da Universidade de Colúmbia. Nesse caso a questão referencia até que ponto essas doenças psíquicas do mundo moderno não são apenas comportamentos antes considerados normais ou sentimentos negativos vivenciados pelo paciente, que, ao não saber lidar com os acontecimentos, procura auxílio medicamentoso. Neste contexto é importante ressaltar a influência da imagem visual passada pela publicidade farmacêutica, na qual sempre há pessoas felizes e realizadas, e, questionar a real necessariedade de toda a medicação prescrita. Nestes termos é fundamental também repensar no fato de doenças recentes como essas estarem sólida e substancialmente eivadas de investimentos, contrariamente ao que acontece com as doenças negligenciadas, as quais causam milhões de mortes anuais.
Reforçando o entendimento percebe-se que os dados apresentados mostraram que entre 1975 e 2004 desenvolveram-se 1556 novos fármacos, dos quais apenas 21 deles foram direcionados aos portadores de doenças negligenciadas.
Salientamos também um envolvimento relativamente questionável entre a indústria e os médicos, facilmente perceptível nos consultórios, onde é rotineiro encontrarmos representantes de diversas marcas de medicamentos, oferecendo uma diversidade de produtos. Diante desta notável observação a nossa reflexão paira sobre até onde os benefícios oferecidos pela indústria farmacêutica a esses profissionais da saúde exercem influência na prescrição medicamentosa.
Atualmente, conforme foi demonstrado na apresentação, cerca de 50 a70% das consultas médicas redundam em prescrições medicamentosas, sendo questionável se todas elas seriam realmente necessárias.
Outra máxima verificada é que atualmente está se tornando cada vez mais difícil encontrarmos pessoas que não fazem uso de qualquer medicamento, isto é aumenta-se cada vez mais o número de hipocondríacos no mundo, induzindo-nos a acreditar que a sociedade mundial está se tornando cada vez mais dependente de medicamentos.
Dentre toda essa discussão, outros temas relacionados foram abordados; todos com o objetivo de instigar o pensamento crítico dos futuros profissionais de uma área tão importante da saúde.
Esperamos que os contextos apresentados, já os tenham estimulados a refletir sobre a responsabilidade e função social, amplitude e extensão da nossa profissão.
O CEMED continuará promovendo seminários com diversos outros temas, onde a participação do estudante é de suma importância tanto no que se refere ao avanço tecnológico com a finalidade de uma transformação holística do conhecimento farmacêutico, quanto para a ética e política social da área de saúde de nossa sociedade.
Quem sabe faz a hora não espera acontecer. Não deixem de participar!
Aguardem a divulgação dos próximos seminários!
